ENGENHARIA DE TECIDOS E A ENGENHARIA BIOMECÂNICA
A engenharia de tecidos é um campo interdisciplinar dedicado à regeneração de tecidos humanos funcionais. Apesar de o corpo ter propriedades intrínsecas de autocura, a extensão do reparo varia entre os diferentes tecidos e também pode ser prejudicada pela gravidade da lesão ou doença.
A técnica usa uma combinação de células, engenharia, métodos de materiais e fatores bioquímicos e físico-químicos adequados para restaurar, manter, melhorar ou substituir diferentes tipos de tecidos biológicos.
A engenharia de tecidos frequentemente envolve o uso de células introduzidas em estruturas compostas de biomateriais para formação de um novo tecido viável para fins médicos, mas não se limita a aplicações, envolvendo células e estruturas de tecido.
Embora a técnica tenha usos complexos em clonagem de tecidos e órgãos, essa é bem consolidada quando se fala em regeneração óssea.
Na reconstrução de tecidos existe a possibilidade do uso de diversas técnicas. Dentre as citadas por Chan e Leong [1], as principais são por estruturas porosos por meio de scaffolds; estruturas através de descelularização do tecido, mantendo estruturas naturais, camada celular e geração da própria matriz celular e célula encapsulada em hidrogênio.
O que são scaffolds?
Scaffolds são estruturas tridimensionais com uma estrutura porosa, utilizados como suporte, que promovem a proliferação celular, ou colonização de células, fornecendo um ambiente estável, auxiliando a remodelagem dos tecidos[2].

Scaffold cerâmico (esquerda) Scaffold polimérico (direita)
Funções análogas de andaimes e matrizes extracelulares
Alguns critérios têm de ser estabelecidos quando falamos de regeneração celular, a matriz celular tem que tentar se assemelhar ao máximo ao tecido original, dessa forma, estando análogas às funções da matriz extracelular e do tecido original, e estando associados com suas características arquitetônicas, biológicas e mecânicas.
Arquitetura: Scaffolds devem fornecer volume vazio para vascularização, formação e remodelação de novos tecidos, de modo a facilitar a integração do tecido hospedeiro sobre a implantação.
Compatibilidade cito e de tecido: os Scaffolds devem fornecer suporte para aplicação externa ou células endógenas para anexar, crescer e se diferenciar durante a cultura in vitro e implantação in vivo.
Bioatividade: Scaffolds podem interagir com o componente celular dos tecidos projetados ativamente para facilitar e regular suas atividades. Os biomateriais podem incluir pistas biológicas, como adesivos celular ligantes para aumentar a fixação, ou pistas físicas, como topografia para influenciar a morfologia e o alinhamento das células.
Propriedade mecânica: Scaffolds podem fornecer mecânica e estabilidade da forma ao defeito do tecido. As propriedades mecânicas dos biomateriais usados para scaffolds ou suas propriedades de pós-processamento devem coincidir com o do tecido do hospedeiro.
Scaffold a base de matéria-prima sintética
Essa técnica consiste em gerar uma matriz porosa a base de materiais biodegradáveis, para introdução e proliferação de células no seu interior. Esse material então é introduzido na região danificada, as células vão assumindo a identidade do local e a regeneração ocupando espaços disponibilizados pela degradação do material biodegradável.
Em geral, acredita-se que os biomateriais sintéticos possuem melhor controle físico e mecânico de propriedades e pode ser usado para adaptar em tecidos moles e duros. A desvantagem dos materiais sintéticos encontra-se na adesão celular em suas superfícies.

Estruturas por meio de descelularização do tecido mantendo estruturas naturais
Tecidos nativos de doadores autógenos (do próprio paciente), alógenos (da mesma espécie) ou xenógenos (espécies diferentes) são descelularizados e inoculados com células novas. Essas então são cultivadas em um reator até se tornar um scaffold. Essa técnica remove os antígenos celulares alogênicos ou xenogênicos dos tecidos, preservando apenas a matriz celular, a qual é implantada no local que se deseja que o tecido se regenere. Esse tipo de técnica pode ser usada para reconstrução de pequenas partições de tecidos moles como válvulas cardíacas, vasos, nervos, tendão e ligamentos.

Camada celular e geração da própria matriz celular
Nessa técnica, as células geram sua própria matriz celular quando cultivadas em cima de um polímero termo-responsivo, como prato de cultura revestido com poli (N-isopropilacrilamida). As células se multiplicam em cima deste polímero até formarem uma superfície grande o suficiente para formação de um tecido. Tal técnica pode ser repetida para laminar várias camadas de células únicas, a fim de formar uma matriz mais espessa. Uma das vantagens dessa técnica é a possibilidade de confecção de tecidos complexos vascularizados, o que não é possível com as outras técnicas. No entanto, uma desvantagem desta abordagem é que é difícil construir tecidos espessos, pois cada camada é de cerca de 30 um de espessura.

Encapsulamento de células em matriz de hidrogel
O encapsulamento é um processo que aprisiona células vivas dentro do confina de uma membrana semipermeável ou dentro de uma massa sólida homogênea. Os biomateriais usados para encapsulamento são geralmente hidrogéis, que são formados por reticulação covalente ou iônica de polímeros solúveis em água. Muitos tipos de biomateriais, incluindo naturais e hidrogéis sintéticos, podem ser usados para encapsulamento, desde que as condições que induzem a formação de hidrogel ou a polimerização sejam compatíveis com células vivas.

Impressão de órgãos
Os próximos passos da engenharia de tecidos está focada não apenas na tecnologia regenerativa – embora hajam muitos estudos sobre uso de scaffolds para regeneração de tecidos permanentes danificados, principalmente par o sistema nervoso – mas também na impressão de órgãos inteiros[3].
Hoje, ainda temos muitas limitações quanto a seleção material e a diferenciação celular para elaboração de tecidos complexos.

B. P. Chan and K. W. Leong, “Scaffolding in tissue engineering: general approaches and tissue-specific considerations,” Eur. Spine J., vol. 17, no. S4, pp. 467–479, Dec. 2008, doi: 10.1007/s00586-008-0745-3.
Uso de pele artificial para indústria cosmética
Mais recentemente em 2019 uma startup brasileira, a BioCellTis, desenvolveu uma pele artificial através de técnicas de engenharia de tecidos para uso na indústria de cosméticos, assim reduzindo a necessidade de testes em animais[4].

“Startup brasileira cria pele humana artificial para testes cosméticos | Exame.” https://exame.com/ciencia/startup-brasileira-cria-pele-humana-artificial-para-testes-cosmeticos/ (accessed Sep. 01, 2021).
Sobre o autor

M.e. Eng. Lucas Kurth de Azambuja
Lucas Kurth de Azambuja é Mestre e Engenheiro de Materiais, formado pela UFSC, especializado na área de polímeros. Também realizou intercâmbio para França na École Nationale d’ingénieurs de Saint-Étienne e estagiou na École de Mines de Saint Étinne. Desde 2017, Lucas é bolsista no Laboratório de Engenharia Biomecânica, onde realizou seu trabalho de conclusão de curso focado no estudo de degradação de implantes mamários. Posteriormente realizou sua dissertação, também no laboratório, focado na análise de insertos acetabulares após uso em in vivo. Hoje é resposável pela execução das análises poliméricas do laboratório, além de colaborar no projeto do Centro Nacional de Explantes
Referência
[1] B. P. Chan and K. W. Leong, “Scaffolding in tissue engineering: general approaches and tissue-specific considerations,” Eur. Spine J., vol. 17, no. S4, pp. 467–479, Dec. 2008, doi: 10.1007/s00586-008-0745-3.
[2] J. Bernardes, “Agência USP de Notícias » Estrutura com polímeros estimula regeneração de tecidos,” Agência USP de infomação, 2016. http://www.usp.br/agen/?p=228138 (accessed Aug. 30, 2021).
[3] J. J. Chung, H. Im, S. H. Kim, J. W. Park, and Y. Jung, “Toward Biomimetic Scaffolds for Tissue Engineering: 3D Printing Techniques in Regenerative Medicine,” Front. Bioeng. Biotechnol., vol. 8, no. November, pp. 1–12, 2020, doi: 10.3389/fbioe.2020.586406.
[4] “Startup brasileira cria pele humana artificial para testes cosméticos | Exame.” https://exame.com/ciencia/startup-brasileira-cria-pele-humana-artificial-para-testes-cosmeticos/ (accessed Sep. 01, 2021)



























Cristiane Nayuni Wada é Mestre e Engenheira de Materiais formada pela Universidade Estadual de São Paulo e atualmente é aluna de Doutorado em Ciência e Engenharia de Materiais. Sua tese foca no desenvolvimento de implantes drug delivery para tratamento de câncer.











Prof. Gerhard Holzapfel participa de defesa de exame de qualificação de doutorado de aluno do grupo LEBm. O professor Holzapfel (Institute of Biomechanics of the Technische Universität Graz (TUGraz) – Austria) é reconhecido com um dos maiores pesquisadores da atualidade na área de biomecânica de tecidos biológicos e está atuando em cooperação com o Professor Alberto Fancello (GRANTE e LEBm) na tese do M. Misael Dalbosco entitulada “Multiscale numerical investigation on the pathogenesis of abdominal aortic aneurysms “. A defesa contou ainda com a participação dos Professores Rogério Marczak (UFRGS) e Pablo Blanco (LNCC), tendo sido presidida pelo Prof. Rodrigo Roesler, coordenador do LEBm/UFSC. O principal objetivo da pesquisa é: fornecer uma melhor compreensão da patogênese (ou seja, formação e progressão) dos aneurismas da aorta abdominal (AAAs) para apoiar o desenvolvimento de critérios mais refinados para intervenção cirúrgica
